Há algo curioso na cobertura econômica brasileira: a sensação recorrente de que estamos sempre à beira de uma virada estrutural — pelo menos nas manchetes.
“Inflação do aluguel cai.”
“Balança comercial fecha no azul.”
“Indicadores surpreendem positivamente.”
“Mercado melhora projeções.”
O país parece viver ciclos semanais de euforia estatística. Um comprimido diário de alívio coletivo. Um rivotril informativo que reduz a ansiedade sem necessariamente tratar a causa.
Mas o problema não está nos números. Está na moldura.
Tomemos dois exemplos recentes e recorrentes.
Quando se noticia que a “inflação do aluguel cai”, o dado é tecnicamente correto. O IGP-M recuou 0,73% no mês. Manchete legítima. Mas o que isso significa, na prática?
O IGP-M é um dos indexadores usados para reajuste de contratos de aluguel — não é o valor do aluguel em si. A queda mensal não significa redução nominal do que o inquilino paga. Significa, no máximo, que o reajuste futuro pode ser menor — e apenas no aniversário contratual. Além disso, o recuo foi puxado majoritariamente pelo IPA (atacado), influenciado por commodities como minério de ferro, soja e café. O IPC, que reflete mais diretamente o consumo das famílias, continuou positivo.
Não houve barateamento estrutural do custo de vida. Houve oscilação técnica de índice. Mas a chamada produz sensação de alívio imediato. É um enquadramento emocionalmente eficaz.
O mesmo ocorre quando se anuncia que a “balança comercial fecha no azul”. Superávit comercial é, em tese, sinal positivo. Exportar mais do que importar indica entrada líquida de dólares. A manchete é verdadeira. Mas a composição importa — e importa muito.
Nos últimos anos, o superávit brasileiro tem sido fortemente concentrado em commodities primárias: soja, minério de ferro, petróleo bruto, café, carne. Setores relevantes, sem dúvida, mas com características estruturais específicas: alta mecanização, baixa geração proporcional de emprego, reduzida agregação de valor tecnológico e forte dependência de ciclos externos. Enquanto isso, seguimos importando semicondutores, máquinas industriais, equipamentos médicos, tecnologia de ponta e insumos químicos sofisticados.
O resultado é paradoxal: podemos registrar superávit externo e, simultaneamente, conviver com desindustrialização relativa e perda de densidade tecnológica.
Essa dinâmica não é nova. Desde o período colonial, o Brasil opera ciclos de dependência primária: açúcar, ouro, café, borracha, soja, minério. Economistas estruturalistas como Celso Furtado já alertavam, no século XX, para o risco de especialização excessiva em produtos de baixo valor agregado e dependência tecnológica externa. O boom das commodities nos anos 2000 — impulsionado sobretudo pela demanda chinesa — gerou superávits robustos e crescimento acelerado. Mas parte significativa desse desempenho estava ancorada em preços internacionais favoráveis, não necessariamente em ganho de produtividade sistêmica ou complexificação industrial.
Os números históricos ajudam a compreender o quadro. Na década de 1980, a indústria de transformação respondia por algo próximo de 25% do PIB brasileiro. Nos anos 1990, esse percentual começou a recuar. Nas últimas duas décadas, a participação da indústria no PIB caiu para a faixa de 11% a 13%, dependendo da metodologia considerada. Em outras palavras, enquanto celebramos superávits comerciais, a base industrial — historicamente associada à inovação, geração de empregos qualificados e encadeamentos produtivos complexos — perdeu peso relativo na economia.
Esse processo dialoga com um fenômeno conhecido na literatura econômica como “doença holandesa”. O conceito surgiu após a descoberta de grandes reservas de gás natural na Holanda, nos anos 1960. A valorização da moeda local, impulsionada pela exportação de recursos naturais, acabou tornando menos competitivos os setores industriais. O país enriquecia com a commodity, mas via sua indústria perder espaço. Em contextos de forte dependência de produtos primários, a abundância pode paradoxalmente enfraquecer a diversificação produtiva.
O Brasil não reproduz mecanicamente o caso holandês, mas o debate é pertinente. A valorização de commodities pode gerar conforto externo e sensação de prosperidade, enquanto, internamente, a estrutura produtiva se torna mais estreita.
É aqui que a cobertura econômica ganha relevância. Economia, nas democracias contemporâneas, não é apenas número; é percepção. Expectativas moldam comportamento. Consumidores gastam ou poupam conforme confiança. Investidores expandem ou retraem conforme sinalização. Governos, por sua vez, reforçam narrativas para estabilizar humor econômico.
Não se trata necessariamente de mentira. Trata-se de ênfase. Quando o dado permite leitura positiva, ela tende a virar manchete. Quando exige explicação técnica, vai para o corpo do texto. E como grande parte da população consome apenas o título, a sensação coletiva passa a ser construída por fragmentos.
O problema não é celebrar dados positivos. O problema é transformar variação conjuntural em sensação estrutural. Melhora estrutural envolve aumento consistente de produtividade, diversificação da pauta exportadora, redução da dependência tecnológica, avanço educacional sustentado, crescimento real de renda per capita ao longo do tempo e diminuição duradoura de desigualdade. Nada disso se mede por três meses “no azul” ou por um recuo mensal de índice.
Quando a sociedade passa a se contentar com oscilações como se fossem transformações, cria-se uma anestesia coletiva. O rivotril nosso de cada dia.
Uma leitura adulta da economia exige composição, não apenas saldo; série histórica, não apenas mês corrente; qualidade do crescimento, não apenas volume; produtividade, não apenas preço internacional favorável.
E aqui entramos em algo maior do que economia. Entramos no terreno civilizacional. Sociedades se sustentam sobre pilares invisíveis: verdade, profundidade, liberdade e constância. Quando a verdade é fragmentada em chamadas parciais, quando a profundidade cede lugar ao entusiasmo estatístico, quando a liberdade de interpretação é guiada por molduras pré-fabricadas e quando falta constância na análise estrutural, a percepção coletiva começa a se afastar da realidade.
Economia não é slogan. É estrutura.
E estrutura não melhora por manchete.
Quando confundimos oscilações com transformação, superávit pontual com desenvolvimento, índice mensal com prosperidade duradoura, não estamos apenas errando na leitura econômica. Estamos treinando uma cultura a se satisfazer com superfície.
E civilizações que se acostumam à superfície acabam perdendo o fundamento.

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